A Fé de São Vicente

O Ano da Fé começará em 11 de outubro. Como já lemos na Nota com indicações pastorais para o Ano da Fé, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé, “os santos e bem-aventurados são autênticas testemunhas da fé”. Para as Filhas da Caridade, e toda a Família Vicentina, estas testemunhas são, em primeiro lugar, nossos Santos Fundadores. Neste mês de setembro vamos refletir um pouco sobre esta virtude na vida de São Vicente. Algumas reflexões do Padre Jean Morin, C.M. (Ecos, novembro-dezembro, 2008), propostas em quatro partes semanais durante este mês, nos ajudarão em nossa meditação:

1. O CRISTO antes de tudo

A fé de Vicente de Paulo em Jesus Cristofoi definitivamente marcada pelos acontecimentos de 1617. O Cristo que se revela em Gannes-Folleville, depois em Châtillon foi, como ele não se cansava de dizer, o Cristo enviado por Deus para evangelizar e servir os pobres: “Nossa partilha, pois, Padres e meus Irmãos, são os pobres, os pobres. Ele me enviou para evangelizar os pobres! Que felicidade, Senhores, que felicidade! Fazer o que fez Nosso Senhor ao descer do céu a terra e para quê iremos nós da terra ao céu, continuar a obra de Deus, que fugia das cidades e ia para os campos buscar os pobres. Eis para quê nos ocupam nossas regras; para ajudar os pobres, nossos senhores e nossos mestres” (Coste XII, 4-5).

Vicente de Paulo neste ponto capital foi um aluno notavelmente consciencioso da Escola Francesa. “Lembrai-vos Padre”, escrevia ele a um de seus coirmãos, “lembrai-vos que vivemos em Jesus Cristopela morte de Jesus Cristo; que devemos morrer em Jesus Cristopela vida de Jesus Cristo; que nossa vida deve permanecer oculta em Jesus Cristo, cheia de Jesus Cristo, e que, para morrer como Jesus Cristo é preciso viver como Jesus Cristo” (Coste I, 295).

Finalmente, ele tinha encontrado esta fé simples e viva, esta fé “que não se abala”. Imediatamente tudo se organiza a partir do princípio que nossa vida deve ser a continuação de Jesus Cristo e imitação de Jesus Cristo. Estes dois temas voltam sem cessar ao pensamento e à ação de São Vicente.

2. O EVANGELHO

Para Vicente de Paulo, o Evangelho era, na verdade, o livro por excelência da fé, o livro que lhe permitia encontrar diretamente e, sobretudo, de uma maneira simples, o pensamento e a vontade de Jesus Cristo. Quando entrava no Evangelho, entrava sempre por duas portas:

Lucas 4, 18 é um texto que com muita frequência eu citei. É a passagem do Evangelho onde, no começo de sua vida pública, JESUS aplica a si mesmo as palavras do Profeta Isaías: “O Senhor me enviou anunciar o Evangelho aos Pobres”. Para Vicente de Paulo, este texto era a explicação de base de todo o Evangelho. E quando se lê os textos vicentinos, tem-se a impressão que cada vez que Vicente aborda o Evangelho, ele considera se o que é dito e escrito vem de Jesus Cristo, o Enviado aos Pobres.

A segunda chave de leitura, Mateus 25, 31 vem reforçar este aspecto da fé de São Vicente. Esta evocação do Juízo Final feita pelo Cristo: “tive fome e me destes de comer; estava doente ou prisioneiro e me visitastes; era estrangeiro e me acolhestes”.

Em nossos dias, nutricionistas declaram, às vezes: “Diga-me o que comes e eu dir-te-ei quem és”. É bem certo que conhecendo a constância com a qual o Padre Vicente lia e meditava cada dia o Evangelho, para alimentar-se à saciedade, podemos, sem dificuldade, fazer uma ideia do que ele era.

3. A IGREJA

De Igreja, Vicente teve, primeiramente, durante quatorze anos em Pouy, uma ideia tradicional e, sem dúvida, um pouco longínqua. Depois, a partir de 1595, ele a vê como uma realidade sobrenatural é certo, mas, sobretudo, como um organismo hierárquico. Em Clichy, Vicente começa a fazer experiência de uma realidade mais profunda: a realidade do povo de Deus.

Contentar-me-ei em dizer para vocês uma passagem que traduz muito bem, acho eu, através das palavras de Bossuet, o pensamento profundo de São Vicente e a ideia que fazia da Igreja: “a Igreja de Jesus Cristo é verdadeiramente a cidade dos Pobres. Os ricos, não temo em dizê-lo, nela não serão admitidos, na qualidade de ricos, senão por tolerância. Vinde, pois, ricos, a porta da Igreja vos está aberta, porém, ela vos está aberta em favor dos pobres e à condição de servi-los. É por amor pelos seus filhos que Deus permite a entrada a pessoas estrangeiras… Os ricos são estrangeiros, mas, o serviço dos pobres os naturaliza… Ricos do século, usai quanto queirais estes títulos suntuosos, vós os podeis usar no mundo; mas, na Igreja de Jesus Cristo, vós sois apenas os servos dos pobres…”

A fé de São Vicente foi a fé de uma Igreja, Cidade dos pobres e Serva dos Pobres, como lembrou o Vaticano II. As Conferências das terças-feiras, os Seminários e a ação do Padre Vicente, durante dez anos, no Conselho de Consciência, tiveram, sobretudo, por objetivo fazer nomear Bispos, formar Padres e leigos, capazes de fazer aparecer cada vez mais a Igreja, como a Cidade dos Pobres.

4. O ACONTECIMENTO

Este foi o último aspecto característico da fé de Vicente, a respeito do qual precisamos ainda voltar à sua experiência e ao seu itinerário. Seu temperamento, bem como suas raízes rurais e gasconhas, incitaram-o a tornar-se um homem concreto e até mesmo pragmático. Mas, foram principalmente suas experiências espirituais que o levaram a considerar o acontecimento como portador da mensagem e como presença de Jesus Cristo.

Foi o caso muito especial de Gannes-Folleville e Châtillon. Nestas duas circunstâncias, ele mesmo afirma que teve a certeza de ter se encontrado com Deus. Ele teve a oportunidade de repeti-lo várias vezes: “Não fui eu… foi Deus”. Desta maneira, todos os acontecimentos, sobretudo, os que têm relação com os pobres, tornaram-se para Vicente mensagens e sinais de fé.

Ora, esta oração nos aparece como um diálogo íntimo, numa praça pública repleta de gente. Diálogo com Jesus Cristo continuamente presente, mas, numa praça invadida pela Missão da Polônia ou da peste de Gênova ou dos dramas de Madagascar ou dos pobres do mundo. O Padre Vicente, como o Cristo e a Comunidade, evocava os acontecimentos e buscava de novo o seu sentido e a lição providencial que os levava a melhor vivê-los.

Depois do Vaticano II, falou-se muito de sinais dos tempos. Sem ter empregado estes termos, Vicente de Paulo foi, na matéria, um mestre de leitura.

Numa palavra, a melhor definição da fé de São Vicente parece nos ter sido dada pelo famoso “Deixar Deus por Deus”, o movimento perpétuo entre Jesus Cristo e o pobre. É certamente a experiência de fé fundamental que nos propõe São Vicente.