QUEM É JESUS PARA LUÍSA DE MARILLAC?

Durante o tempo do Advento e do Natal, nós meditamos sobre a Encarnação. Aqui, apresentamos a reflexão da Irmã Elisabeth Charpy e da Irmã Louise Sullivan sobre Santa Luísa e a Encarnação.

louise216Por que a Encarnação?

Santa Luísa gostava de compreender bem as coisas. Refletia sobre as razões que puderam levar Deus a enviar seu Filho à terra. Uma frase pode resumir seu pensamento sobre o motivo da Encarnação: “Deus jamais testemunhou maior amor aos homens do que quando resolveu encarnar-se” (Santa Luísa de Marillac, Correspondência e Escritos. Trad. da Irmã Lucy Cunha. Ribeirão Preto, Editora Legis Summa, s. d.; p. 793).

Depois que Adão rejeitou Deus de sua vida e quis fazer de si mesmo seu próprio deus, a Encarnação manifesta a grande atenção de Deus por suas criaturas. Deus quer encontrar-se com o pecador no mais profundo de seu sofrimento e dar-lhe de novo confiança em si mesmo. Deseja que ele compreenda bem a dignidade de seu ser, pois foi feito à imagem e semelhança de Deus. Este desejo divino, insiste Santa Luísa, não pode realizar-se a não ser num total respeito da liberdade da pessoa.

Cada um poderá acolher esta graça divina ou rejeitá-la conforme o que pessoalmente decidir. Deus não condiciona as escolhas humanas. O homem é liberdade; tem, pois, toda a capacidade de fazer escolhas, de dizer sim ou não às iniciativas de Deus.

Realização da Encarnação

Santa Luísa de Marillac gostava de contemplar a Trindade reunida em conselho, procurando como manifestar aos homens todo o seu amor e decidindo junto a Encarnação do Verbo: “Logo que a natureza humana pecou, o Criador, no Conselho de sua Divindade, quis reparar esta falta. E para isso, com um supremo e puríssimo amor, decidiu: uma das três pessoas iria encarnar-se; nisso aparece, mesmo na Divindade, uma profunda e verdadeira humildade” (Escritos, p. 792).

A promessa da Encarnação da segunda pessoa da Trindade se inscreve no plano de amor de Deus pela humanidade. Para Santa Luísa, a humildade define Deus tanto quanto o Amor. Deus não é mais o Deus distante e exigente, o Todo-Poderoso, tão frequentemente apresentado ao povo.

A própria Encarnação já bastaria para fazê-lo reconhecer. Mas muitos outros atos da vida de Jesus vêm confirmá-lo. Por seu nascimento num presépio, “Jesus se fez criança, a fim de facilitar às criaturas o livre acesso até ele” (Escritos, p. 812). Considera “a humildade vivida por Nosso Senhor em seu batismo” (Escritos, p. 813). E, meditando sobre o lava-pés na tarde da quinta-feira santa, Santas Luísa anota: “Não pode haver nada que me impeça de humilhar-me ante o exemplo de Nosso Senhor” (Escritos, p. 813). Cristo tinha interesse em ser honrado por seus Apóstolos, mas aceitou rebaixar-se até “lavar os pés de seus Apóstolos” (Escritos, p. 813).

Maria, a Mãe de Jesus

A Encarnação do Filho de Deus é real. O Verbo se faz carne na Virgem Maria. Com muita emoção e reconhecimento, Santa Luísa contempla a escolha que Deus fez de Maria, essa simples mulher de Nazaré: “a dignidade de Mãe de seu Filho, para a qual Deus a destinava” (Escritos, p. 843).

Por experiência pessoal, Santa Luísa de Marillac conhecia a alegria de dar a vida a uma criança, de fornecer-lhe o mais íntimo dele mesma, seu sangue. Ela gostaria de expressar toda a felicidade que a invadia: “Eis que chegou o tempo de cumprir vossa promessa. Sede para sempre bendito, ó meu Deus, pela escolha que fizestes da Santíssima Virgem (…) e para isso vos servis do sangue da Santíssima Virgem para, com ele, formar o corpo de vosso amado Filho” (Escritos, p. 919).

Toda a glória de Maria vem de sua maternidade divina. Santa Luísa proclama que Maria é “a obra-prima da onipotência de Deus na natureza puramente humana” (Escritos, p. 954). Louvar Maria, por Deus a ter escolhido, não será glorificar o próprio Deus? Deus tanto amou os homens que ele mesmo quis vir para o meio deles, recebendo sua humanidade de Maria.

A humanidade santa de Cristo

Em 1652, Santa Luísa escreve às Irmãs de Richelieu e lhes lembra a importância de contemplar a vida do Filho de Deus durante sua permanência entre nós. Ali descobrirão a verdadeira Caridade: “A mansidão, a cordialidade e a tolerância hão de ser a prática peculiar das Filhas da Caridade, do mesmo modo que a humildade, a simplicidade, o amor à santa humildade de Jesus Cristo, que é a perfeita caridade, são seu espírito. Eis, queridas Irmãs, o que pensei dizer-vos como um resumo de nossos regulamentos” (Escritos, p. 462).

Em sua longa carta de agosto de 1655 às distantes Irmãs da Polônia, Santa Luísa insiste também na importância de contemplar a vida humana de Cristo: “honrando assim a Nosso Senhor pela prática das virtudes que ele mesmo, por sua santa humanidade, nos ensinou” (Escritos, p. 545).

As últimas cartas de Santa Luísa ainda retomam o mesmo tema, como na carta à Irmã Geneviève Doinel, em 1659, por ocasião do Natal: “Vós me convidais a ir ao presépio a fim de encontrar-me convosco aos pés do Menino Jesus e de sua Santa Mãe. (…) Dele, queridas Irmãs, aprendereis os meios para viver as sólidas virtudes que sua santa Humanidade praticou no presépio, desde o nascimento. De sua infância alcançareis o que necessitardes para chegardes a ser verdadeiras cristãs e perfeitas Filhas da Caridade” (Escritos, p. 752).

A insistência de Santa Luísa sobre a contemplação da humanidade de Jesus Cristo mostra o quanto desejava que a vida de toda Filha da Caridade fosse um reflexo do rosto de Cristo, de sua infinita bondade, de seu amor incomensurável. Cristo é verdadeiramente a Regra das Filhas da Caridade, como o é de toda a Família Vicentina.

Continua…