QUEM É JESUS PARA LUÍSA DE MARILLAC? (2)

louise216Jesus, o Redentor

Santa Luísa de Marillac, que tem uma boa formação teológica, reconhece que “a Encarnação do Filho de Deus [é], segundo seu desígnio, por toda a eternidade, para a Redenção do gênero humano” (Escritos p. 954). A ruptura entre Deus e os homens, provocada pelo pecado, não podia durar para sempre. Enviando seu Filho à terra, Deus quis renovar a Aliança e permitir aos homens que reencontrassem de novo o que dá sentido às suas vidas. A redenção, nota Santa Luísa, é uma nova criação, uma recriação, o que só se pode conseguir ao termo de um longo processo de transformação, de morte e ressurreição de vida.

A humanidade sofredora aparece a Santa Luísa como um prolongamento da humanidade sofrida de Cristo. O serviço do amor de cada vicentino é uma continuação da Redenção, permitindo a todo pobre, humilhado e aniquilado, que possa reviver, ressuscitar, tornar-se novamente um homem vivo, libertado de seu mal, de seu pecado, um homem livre. Esta reflexão espantosa se liga à de São Paulo, que ousa dizer: “Agora me alegro de sofrer por vocês, pois vou completando em minha carne o que falta nas tribulações de Cristo, a favor de seu corpo, que é a Igreja” (Col 1, 24).

A Paixão do Filho de Deus é um ato de amor tão profundo que Santa Luísa quis inscrevê-lo no brasão da Companhia das Filhas da Caridade: “A caridade de Cristo Crucificado nos impele”. Para Santa Luísa, esse amor deve animar e inflamar o coração de toda Filha da Caridade para o serviço de todos os necessitados. Na fórmula com que termina suas cartas, Santa Luísa menciona muitas vezes esse amor inaudito manifestado por Jesus Cristo na Cruz. “Sou, no amor de Jesus crucificado, vossa humilde serva”. Luísa deseja, para si mesma e para as pessoas a quem escreve, que estejam repletas do mesmo amor que levou Jesus a morrer na Cruz. Fez suas as palavras de São João em sua primeira epístola: “O amor consiste nisto: Não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. É nisto que de agora em diante conhecemos o amor: Jesus deu a vida por nós e também devemos dar nossa vida por nossos irmãos (cf. 1Jo 4, 10.16).

A Eucaristia

A Encarnação não se limita ao tempo da vida de Cristo. Jesus, quando chega sua Hora, encontra um meio de prolongá-la, de conseguir ficar para sempre conosco. Santa Luísa se maravilha com esta invenção extraordinária da Eucaristia: “A imensidão do seu amor para conosco não se contentou com isso, mas, querendo unir inseparavelmente a natureza divina com a natureza humana, realizou-a após a Encarnação, na admirável invenção do Santíssimo Sacramento do Altar, no qual habita, continuamente, a plenitude da divindade da segunda Pessoa da Santíssima Trindade” (Escritos, p. 898).

Parece que Deus quer dizer e repetir ao homem toda a profundeza do seu Amor. A Encarnação já manifestava este profundo desejo de união; a Eucaristia a realiza de um modo ainda maior. Santa Luísa de Marillac não se detém no aspecto “memória e sacrifício” da Eucaristia, mas fala longamente da comunhão, “esta ação tão admirável e incompreensível aos sentidos humanos” (Escritos, p. 942).

Receber o Corpo de Cristo é, segundo Santa Luísa, tornar-se participante desta Vida de Deus. Cristo se dá em alimento para que o homem busque nele uma energia nova para cumprir suas tarefas no mundo. À imitação de Cristo, o cristão é chamado a doar todo o seu ser, se deseja levar vida e amor a seu próximo. A recepção da comunhão nos traz uma força excepcional, pois nos dá “capacidade de nele viver, tendo-o vivo em nós” (Escritos, p. 943).

Em resposta a tal dom de Deus, Santa Luísa deseja para si mesma e para aquelas a quem acompanha em sua caminhada espiritual, “uma suave e amorosa união com Deus” (Escritos, p. 942-943). É de fato possível a um ser humano ter tal união com seu Deus? O tempo de ação de graças que se segue à comunhão vai permitir-nos dizer novamente a Deus toda a nossa alegria e todo o nosso reconhecimento, porque Cristo, vindo a nós, nos torna semelhantes a ele! Alegremo-nos “admirando este surpreendente invento e esta amorosa união, pela qual Deus, vendo-se em nós, faz-nos, uma vez mais, à sua semelhança, com a comunicação não só de sua graça, mas dele próprio” (Escritos, p. 943). Santa Luísa não sabe como agradecer a seu Senhor e seu Deus que tenha querido permanecer assim na terra, para que todos os homens possam oferecer-lhe toda a glória que sua Santa Humanidade já recebe no céu.

Conclusão

Santa Luísa tem uma percepção muito forte e toda interior do Amor divino. Como os escritores bíblicos, Santa Luísa reconhece que “Deus é um fogo devorador” (Hb 12, 26). No cotidiano de suas vidas, as Irmãs e todos os que partilham o carisma vicentino são chamados a deixar esse fogo divino invadir seu ser, a acolher a plenitude do Amor que o Espírito vem infundir em seus corações. É nesta relação que encontrarão forças, energia e criatividade para cumprir seu serviço de Amor junto aos que sofrem da pobreza em todas as suas formas antigas e novas.

Santa Luísa de Marillac reconhece que ir no seguimento de Jesus e servi-lo em seus membros sofredores é amar com um “amor não comum” (Escritos, p. 952), isto é, com um amor forte, sólido, que não se deixa abalar à menor dificuldade. Este amor forte se traduz, concretamente e no dia-a-dia, pela atenção a cada um, pela mansidão, pela bondade para com todos. Quanto mais o Amor de Deus cresce em nós, mais tomamos consciência da dignidade de cada um, de sua liberdade, do respeito que lhe é devido. Foi assim que Cristo expressou seu Amor.

Reflexão escrita por Irmã Elisabeth Charpy, FC, da Província França Norte, e Irmã Louise Sullivan da Província Santa Luísa, nos Estados Unidos.