Irmã Carmen de Oliveira Contente

Irmã Carmen de Oliveira Contente

Um sinal da bondade de Deus aos pobres da Amazônia

Nasceu no dia 10 de julho de 1927, em Belém/PA. Foi admitida na Companhia das Filhas da Caridade em 27 de abril de 1953. Fez sua Páscoa para a morada eterna no dia 02 de setembro de 2003, em Cametá/PA.

Irmã Carmen viveu plenamente sua doação total a Deus e aos pobres. Seu testemunho de fidelidade à consagração é lembrado por todos os que viveram, trabalharam ou receberam os seus cuidados. Descrevemos a seguir dois testemunhos: um de sua última Irmã Servente e outro de uma pessoa que ela cuidava.

“Convivi com Irmã Carmen de Oliveira Contente, durante 07 anos, na Comunidade do Instituto Nossa Senhora Auxiliadora, Cametá/PA e pude constatar muitos sinais de santidade na vivência do Carisma vicentino, dos quais destaco:

O CULTIVO DA VIDA INTERIOR: Irmã Carmen tinha gosto pela vida de oração, mesmo com as limitações físicas dificilmente faltava aos momentos de oração da Comunidade e criava outros momentos para estar intimamente unida ao Senhor. Ela costumava escrever suas meditações e estas eram profundas. Tive a oportunidade de ler algumas. Sua semana de oração era preparada com cuidado, tudo organizado por escrito. Todas as vezes que ia para o seu ofício, na Secretaria da Escola, sempre passava na Capela e ficava diante do Sacrário para um momento de adoração. Seu semblante, no momento da meditação, parecia mudar, talvez pela profunda intimidade com o Senhor. Participava com muito amor e respeito da Celebração Eucarística, e mesmo quando já não podia ir à missa pedia para confessar-se e receber a Eucaristia.

VIDA FRATERNA: Sua vida de intimidade com Deus refletia-se no seu relacionamento fraterno, tinha amor às companheiras e parecia saber a dificuldade de cada uma, pois quando se comentava algo negativo de alguma Irmã, ela logo apresentava algo positivo, ressaltando valores ou limitação de saúde que podia estar ocasionando tal comportamento da outra Irmã. Costumava estar presente nos momentos da Vida Comunitária e quando alguma Irmã estava ausente ia ao seu encontro dizendo ter sentido a sua falta. Era fraterna, se vivenciávamos alguma dificuldade, era uma presença amiga e reconfortadora, quando estávamos alegres ela participava igualmente. Era difícil perceber na Comunidade se tinha preferências por uma ou outra, porque ela manifestava atenção a todas.

SERVIÇO DOS POBRES: Dizia que não gostaria de ficar distante dos pobres: “desde meu envio em missão a Companhia me enviou ao serviço de Cristo nos pobres”. Quando uma Irmã a criticou por trabalhar em Colégio particular e de não estar com os pobres, ela respondeu: “eu os encontro por toda parte onde sou enviada, eles não ficam distante de mim, se eles não estão próximo, vou a eles pela visita domiciliar, esta é a minha obrigação de Filha da Caridade, ir onde eles estão”. Durante a semana, mesmo diante da intensa atividade no Colégio, priorizava tempo para levar a Eucaristia aos doentes e nos finais de semana visitava os pobres. Assumiu com dedicação e responsabilidade a Secretaria do Colégio, um serviço que a Comunidade lhe confiou durante 17 anos. Era conhecida e estimada pelos pais, alunos e funcionários por sua atenção e delicadeza no atendimento. A todos tratava com a sua palavra carinhosa “Tia” e todos a tratavam também por Tia. Certa vez presenciei seu atendimento a duas crianças que haviam brigado no recreio. Ao chegar diante dela, disse-lhes: “Meus filhos, vocês estão cansados, querem tomar água, certamente estão com sede, fiquem sentadinhos me aguardando”. Quando voltou com a água, os meninos já haviam se reconciliado, pediram perdão a ela pelo trabalho que estavam dando e ela aconselhou-os e pediu para irem para sala de aula. Com sua delicadeza no trato ia conquistando os corações.

Outro acontecimento que marcou minha lembrança foi na celebração de seu jubileu de ouro. Ela pediu para fazer um almoço para 50 pobrese ficou feliz com a festa. Seu último aniversário festejou com as crianças pobres e solicitou das pessoas amigas brinquedos para serem doadas a estas crianças convidadas para a festinha de aniversário. Já impossibilitada de exercer seu trabalho na secretaria do Colégio, dedicou sua vida inteiramente à oração. Neste período, mesmo doente, continuou acompanhando duas senhoras acometidas pela depressão. Irmã Carmen rezava com elas motivando-as a crescer na fé. Escrevia orações para elas rezarem em casa, as duas senhoras ficaram curadas e continuam participando ativamente da vida da Igreja

Eis o testemunho de uma delas:

“Viver a experiência em Deus através de uma pessoa que se doa para amar e servir, numa sociedade individualista quanto a nossa, é a maior graça que podemos receber, eu posso afirmar com a minha vida que fui contemplada para fazer essa experiência.

Irmã Carmem de Oliveira Contente, foi um anjo que Deus me apresentou num momento extremamente difícil da minha história, para segurar as minhas mãos e me dar a certeza de que a minha vida seria reconstruída por Ele, com o auxílio da Virgem Maria e Nossa Senhora das Graças da medalha Milagrosa.

Ao saber que eu estava sofrendo com o mal da depressão, Irmã Carmen, sem nem mesmo saber o meu endereço certo, veio ao meu encontro em minha casa, para me ajudar na escuridão da minha vida, para que Jesus pudesse ser luz, expressado pela convicção dos seus olhos azuis e pelos gestos do bom Samaritano, isso aconteceu não só comigo, era normal em nossa cidade Cametá, onde por 17 anos ela exerceu a sua missão, como Filha da Caridade de São Vicente de Paulo. Com seu jeito simples, humilde de falar e servir sem olhar a quem estivesse precisando, a “tia” estava lá sempre pronta para servir. A grandeza da sua missão e do ser humano que era ela, consistia, em ver Deus nas pequenas coisas.

Para perceber Deus na vida de Irmã Carmen bastava conviver com ela, na visibilidade dos seus gestos de quem, em toda sua vida encarnou os ensinamentos de Jesus, quando ensinava dizendo: “Eu não vim para ser servido, mas para servir e para dar a vida em resgate de muitos” (Mt 20,28). Essa certeza ela trazia em seu coração e traduzia em sua missão, dedicando-se carinhosamente a fazer o que na limitação de sua vida, agradava o coração de Deus. Uma pessoa que entrega sua vida para viver com Deus, não vive mais para si mesma, nem tão pouco cultiva as paixões do mundo, os que estão em Cristo, já têm as suas paixões cravadas na cruz.

Mesmo com a idade avançada, e já com o câncer que a levou para eternidade consumindo seu corpo, ela não se preocupava em gastar a sua vida para servir. O amor ao próximo corria em suas veias. E assim, ela se empenhava em levar Jesus como conforto ao sofrimento dos outros, mesmo que pra isso fosse necessário o seu bem estar correr risco. E através do servir a quem precisasse, seja a falta de bens materiais ou espirituais, com a sua presença, ela queria que as pessoas soubessem que não estavam sofrendo sozinhos, mas que confiassem no grande libertador de todos os males, Jesus Cristo.

Suas visitas eram divididas pelo seu carinho e pela partilha do Evangelho de forma simples, dinâmicas que me envolvia com tanta esperança, de que aquele mal devastador da depressão ia passar. Relembrando esses momentos, sinto ainda muito forte a emoção, quando tinha Ir. Carmen sentada ao meu lado na minha cama, era como se ela quisesse dividir comigo o que eu estava sentindo, confortando a minha dor, enxugando o meu rosto molhado de lágrimas, sentia nos gestos dela a extensão do amor de Deus afagando a minha alma. Segurando as minhas mãos ela cantava: “Basta que eu te toque Senhor, minha alma fortalecerá, Se a noite escura está, Tua presença me guiará…”, entre outras canções que tranquilizava a minha alma como: “Põe a mão na mão do meu Senhor da Galileia”. “Põe a mão na mão do meu Senhor que acalma o mar, meu senhor, que cuida de mim noite dia sem parar, põe a mão na mão do meu Senhor que acalma o mar”. O som de sua voz ressoou em meus ouvidos por muito tempo. E hoje olhando tudo o que ela fez por mim, não tenho outro sentimento para defini-la: “ela foi uma santa na vida diária do nosso povo, em Cametá”.

Sua vida foi de entrega total a Deus no serviço dos pobres, assim podemos retratá-la: “foi Deus que a criou a quis e consagrou, para anunciar o seu amor

[Maria do Socorro Furtado dos Santos, em 30.03.2019]

Nos últimos dias de sua vida partilhou comigo algumas experiência de fé que vivenciou e que não ousava falar a ninguém temendo ser criticada. Irmã Carmen contou-me que após ser acometida pelo câncer passou a ter problemas intestinais diários e sentia muitas dores, nesse período ela morava na Comunidade Nossa Senhora da Conceição, Tucuruí/PA. Depois de tomar vários medicamentos sob orientação médica, foi encaminhada para tratamento em Belém, capital do Estado. Na véspera de sua viagem levantou-se às duas horas da manhã com forte dor, quase sem poder andar foi à Capela pedir sua cura ao Senhor e foi inspirada a ir à farmácia da Comunidade buscar um remédio para tomar. Chegando ao lugar não quis ligar a luz para ver o remédio, temendo acordar as Irmãs. Então, pôs a mão na prateleira da farmácia e pegou um vidro pequeno e pelo tato percebeu que devia ser tomado em gotas, preparou e engoliu, voltou para sua cama e depois de muitas noites sem dormir, conseguiu dormir bem. Logo pela manhã foi avisar a sua Irmã Servente que não precisava viajar que havia se recuperado, mas não teve coragem de contar o que tinha acontecido, guardou consigo o vidro do remédio que tomou apenas uma dose e ficou curada. Por curiosidade peguei-o e fui às farmácias para ver se encontrava aquele medicamento, mas não o encontrei, me disseram que talvez tenha sido um remédio antigo que não era mais comercializado. Ela me disse que naquele momento teve a certeza que foi Deus quem a curou. 

Irmã Carmen disse-me ainda, que domingo, foi à missa na Igreja paroquial de São João Batista e não sabe a causa, mas de repente ela perdeu a visão. Pensava em pedir à pessoa ao lado para levá-la para a hora da comunhão. Mas, ao ajoelhar-se suplicou ao Senhor a cura de sua visão e quando o Padre concluiu a consagração ela voltou a enxergar novamente.

Estes são alguns sinais de santidade que percebi na vida e missão de Irmã Carmen de Oliveira Contente no período em que tive a graça morar com ela, na Comunidade Nossa Senhora Auxiliadora – Cametá – Pará2.  Que do céu rogue a Deus por nós

[Irmã Rosa Maria Leite dos Santos, Visitadora da Província da Amazônia]