Trinta anos de cuidado, coragem e compromisso no ministério de HIV/AIDS no Lar São Vicente, Muringoor, Kerala
Há três décadas, o HIV/AIDS era considerado uma doença terrível. O grito silencioso daqueles que sofriam com ela não era ouvido por amigos nem por familiares. Esta é a história dos Padres Vicentinos (VC) e das Irmãs, Filhas da Caridade, que se tornaram um verdadeiro oásis de esperança e deram novo sentido à vida das vítimas dessa enfermidade temida.
O Lar São Vicente para pacientes com AIDS foi fundado em 1996 pelo Rev. Pe. George Panakal, VC. Trata-se de um serviço admirável realizado em Muringoor, Kerala. As Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo (FC) colaboram com os padres vicentinos há 30 anos no atendimento aos infectados pelo HIV. Já foram acolhidos mais de três mil pacientes, dos quais centenas tiveram uma morte serena. Em determinado período, o lar chegou a abrigar 107 pacientes juntamente com seus filhos. Algumas dessas crianças foram trazidas diretamente dos hospitais logo após o nascimento. Além disso, o lar oferece estrutura para a educação das crianças.

Um verdadeiro testemunho de esperança
A Irmã Jaya Mary FC, que serviu no lar por sete anos a partir de 1996, declarou:
“Foi um dos serviços mais belos que já realizei. Quando fui chamada para cuidar dos pacientes, a doença era tão terrível e não havia medicamentos disponíveis naquela época. Em seis anos, centenas de pacientes haviam morrido ali. Eu me encontrava face a face com a morte todos os dias, e mesmo assim não sentia medo.”
A maioria havia contraído a doença em razão de uma vida desregrada. Ninguém lhes oferecia ajuda quando recebiam o diagnóstico. Alguns chegavam à instituição pensando em tirar a própria vida. A Irmã Jaya acrescentou:
“Certa vez, um jovem bonito, com pouco mais de vinte anos, veio para a casa. Após a segunda etapa do tratamento, ele me disse: ‘Veja minha bolsa, tenho dois envelopes nela. Um contém duas mil rúpias; enquanto o dinheiro durar, participarei do retiro. O outro contém um pacote de veneno. Não tenho mais nada, e ninguém me quer”.
Após a terceira etapa do tratamento, ele procurou a Irmã Jayamary em lágrimas e disse: “Irmã, fique com isto. Não quero cometer suicídio. Quero viver com Cristo e para Cristo o maior número de dias possível.”
Normalmente, pessoas afetadas pelo HIV/AIDS tornam-se cada vez mais fracas, mas ele se mostrava mais saudável e cheio de energia. Um dia, sugeri que repetisse o teste de HIV. Ele não queria, pois já havia mostrado seu exame positivo. No entanto, no dia seguinte o teste foi realizado e o resultado veio negativo. Em questão de segundos, sua vida mudou; ele não conseguiu conter as lágrimas.
Muitas mulheres contraíram a doença devido à infidelidade dos maridos. Inicialmente, eram amargas e cheias de raiva, mas, graças ao esforço constante das irmãs, todas morreram após perdoá-los. Ao conseguirem perdoar aqueles que lhes transmitiram a doença, muitas puderam viver em paz. A Irmã Sheeba FC declarou: “Foi o serviço mais belo que já realizei. Sinto grande realização na minha vocação.”

Mais saúde e maior expectativa de vida
Até 2003, apenas cuidávamos dos pacientes e os preparávamos para uma morte tranquila. Até então, registramos 832 falecimentos em nossa casa. O tratamento efetivo começou a partir de 2003, quando passamos a realizar consultas regulares e a oferecer Terapia Antirretroviral (TARV) para fortalecer a imunidade. Com isso, a taxa de mortalidade começou a diminuir.
A Irmã Rose Panathara FC, afirma: “Tenho 10 anos de experiência. Pude ser mãe para os órfãos e irmã para muitos. Na maioria dos casos, os internos não tinham contato com suas famílias. Graças aos esforços das irmãs, hoje muitos retomaram esse vínculo. Alguns chegam a passar alguns dias em casa. O estresse mental é muito menor agora.”

Um dia no Lar São Vicente
O dia começa com a oração da manhã (Sapra), celebração da Eucaristia, adoração e oração pessoal. Em seguida, os pacientes realizam diversas atividades, como cuidar dos animais, confeccionar rosários, arrumar os quartos, escrever endereços postais, preparar envelopes, trabalhar na jardinagem, entre outras. Também assistem televisão e participam de aulas de fé e moral. Vivem felizes e unidos como uma verdadeira família. Além disso, organizamos programas de lazer, como passeios ao cinema.
Os pacientes costumam dizer:
“Deus envia anjos disfarçados em forma humana: Anjos da Esperança, e nós estamos com eles”.
No Lar São Vicente, reina a esperança; mesmo à beira da morte, eles permanecem sorrindo com confiança e fé.
Por Irmã Soniya K Chacko FC




